destaque

destaque
9 de abr de 2011

NÃO SOMOS EDUCADOS PARA A PESQUISA


Charles H. Sylvester, Journeys Through Bookland (Chicago: Bellows-Reeve Company, 1909)II:240

Fiquei muitos dias sem fazer uma atualização por aqui, mas por um motivo especial. Estou em pleno vapor na escrita do trabalho de conclusão de curso e isso demanda tempo e muitas letras, o que acaba com meu suprimento de palavras. Então decidí relatar um pouco do processo de pesquisa para vocês. O tema da monografia é “Leitura: a prática dos professores na formação de crianças leitoras”.

Escolhi esse tema por dois motivos. Primeiro porque gosto de leitura e trabalho diretamente com projeto de “formação” de leitores, mediação de leitura e biblioteca. Segundo porque acredito que uma pesquisa que necessita de tanta dedicação deve pertencer ao campo de interesse de quem a executa, pois assim não se tornará um trabalho massante ou sofrido, mas sim instigante, estimulador e dotado de aquisição de conhecimentos. Pesquisar e escrever tendo esses princípios em mente, surtirá na elaboração de um projeto de pesquisa que servirá como uma forma de repensar sobre a própria prática, e de contribuir com a discussão do acesso e do gosto perante o livro e a leitura, panorama que se adequará ao tema que estiver sendo trabalhado.

Particularmente acredito que um trabalho de conclusão de curso deve atender a esses dois objetivos , para justificar sua própria existência. Há tempos me pergunto: qual a relevância da escrita de uma monografia, além do que ser a conclusão de uma etapa acadêmica? Qual sua função prática além de estudo, experiência e conhecimento (para o pesquisador). Venho percebendo a construção de uma monografia como um processo “egoísta”, ou talvez centralizador. Como não somos educados para a pesquisa, não aprendemos a fazê-la da forma que deveria ser. Estamos pensando primeiramente na investigação como cumprimento de uma graduação, buscando a aprovação e criando então uma escrita por obrigação e não pela vontade de saber ou de contribuir para um pensamento.

Essa reflexão que venho fazer hoje não está direcionada apenas o curso de Pedagogia, mas sim a todas as graduações, que ainda não encontraram a maneira de instigar a pesquisa pelo seu valor social e crítico. Claro que não podemos generalizar, mas é muito fácil encontrar estudantes executando e repassando essa prática. As causas são históricas e pertencem a uma deficiência da educação brasileira, daquilo que vem sendo internalizado por sua incidência através dos anos. Pertencem a uma noção de ensino presente nos currículos e metodologias que já não atende a demanda da sociedade de hoje.

Pesquisa precisa ser internalizada como atitude cotidiana, não apenas como atividade especial, de gente especial, para momentos e salários especiais. Ao contrário, representa sobretudo a maneira consciente e contributiva de andar na vida, todo dia, toda hora. Por outra, pesquisa não é qualquer coisa, papo furado, conversa solta, atividade largada. Seu distintivo mais próprio é o questionamento reconstrutivo. Este é o espírito que perpassa a pesquisa, realizando-se de maneiras diversas conforme o estágio de desenvolvimento das pessoas. (DEMO, 1997, p.10)

Vivemos em um sistema de ensino que anda a passos de tartaruga para se desvincular de conceitos e matrizes de sua origem tradicional. A pesquisa vista por seu ângulo abrangente e transformador, não condiz com esse modelo de educação escolarizado, pois a pesquisa realizada da forma ideal, muitas vezes acontecerá muito longe das salas de aula e dos bancos de faculdade, talvez não estará nem nas bibliotecas, mas sim na experimentação de se deixar viver a realidade da qual pretende construir um pensamento acadêmico.


DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. 2.ed. Campinas, SP: Autores Associados, 1997.

1 comentários:

Raquel Mussolini at: 23 de março de 2012 06:01 disse...

Realmente, em muitos aspectos podemos observar uma falha na educação brasileira, e umas das que se tornam evidentes na época de faculdade é a deficiência no método de pesquisa. Não aprendemos a fazer pesquisa nos ensinos fundamental e médio, e nem chegamos a observar isso. Quando entramos no ensino superior, aprendemos usar regras da ABNT para realização de trabalhos,e no final, quando vamos fazer a "grande" pesquisa universitária, não estamos preparados. É engraçado, mas realmente, a maioria, não pensa em trabalhos de conclusão de curso como um conhecimento a ser acumulado, e sim como uma obrigação, que visa um número específico de pontos para a efetiva conclusão da graduação. É triste perceber que ficamos estudando 20 anos e não aprendemos a absorver ao máximo os conhecimentos.

Postar um comentário