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31 de out de 2011

CELEBRE O DIA D


Hoje é dia de voltarmos o olhar para a obra de um dos maiores escritores brasileiros: Carlos Drummond de Andrade. Um poeta que despensa grandes apresentações, por estar na boca e no imaginário de leitores e não leitores, devido a sua grande influência no meio literário. O Dia D é uma iniciativa que visa celebrar o aniversário do poeta, assim como também fomentar o estudo e o contato com sua obra. Várias cidades do Brasil estarão com programações e festividades literárias voltadas ao trabalho de Drummond, como também em Lisboa (Portugal). Em Belo Horizonte acontecerão saraus, mostra de fotos, poesias, cartas, como também a exibição do documentário "O Fazendeiro do Ar", que é uma produção de Fernando Sabino e David Neves (1972)


Existe um Drummond que está escondido em um cantinho da literatura, um Drummond que não é divulgado. Geralmente é na escola que estabelecemos um primeiro contato com sua obra, só que ninguém nos diz de um certo "O Amor Natural" que compõe as produções desse nosso modernista mineiro. 


"O Amor Natural" é um livro que mostra um outro Drummond. Que mostra um poeta falando sobre a sexualidade humana de uma forma intensa. Em seus versos o escritor exprime expectativas, angústias, desejos, curiosidades, fantasias que o homem estabelece com o sexo e a sexualidade. Este foi meu primeiro contato real com o poeta. Achei esse livro genial, excitante, envolvente e com o mesmo lirismo tocante já característico.

Entramos aqui em uma questão preocupante para a "formação" enquanto leitor, que é o excesso de pudor. Não da literatura, que é inteligente e libertadora (em quase sua totalidade), mas sim no posicionamento de pessoas que mediam o livro e a leitura. Esse é um fator cultural que precisa ser debatido, pois o processo de mediação de leitura precisa ser livre, apaixonado e sem pudores. Precisamos sim estar atentos ao amadurecimento do "eu-leitor" e respeitar fases, mas sempre tomando cuidado para não privar as pessoas do contato integral com as características de um autor, de sua obra, e do que a literatura é capaz. Poesia vem do âmago, assim como tudo que é natural. Cabe a nós pais, professores, leitores de longa data, colaborar e permitir que o livro seduza, ajudando a manter esse processo do jeitinho que deve ser: um amor natural.


O QUE SE PASSA NA CAMA 

(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)
É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono de pênis.
Ai, cama, canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme a onça suçuarana,
dorme a cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima... O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciam os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama. 

(Extraído de O AMOR NATURAL. Rio de Janeiro: Record, 1992)


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