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9 de nov de 2011

FLORES RARAS E BANALÍSSIMAS


Sempre que termino a leitura de um livro marcante, sinto a necessidade de indicar, falar sobre, ler análises e me aprofundar na obra do escritor. E não foi diferente com a obra "Flores Raras e Banalíssimas" de Carmem L. Oliveira. O livro conta a história vivida pela poetisa americana Elizabeth Bishop e a esteta brasileira Lota de Macedo Soares. As duas viveram juntas por muitos anos e durante esse tempo nutriram uma história de amor que teve como pano de fundo artes e atrocidades. "Flores Raras e Banalíssimas" é um livro biográfico com ares de romance. Essa sua característica me levou a ler cada capítulo como se acompanha um livro de ficção, evitando ler algo mais na internet, com medo de descobrir os rumos dessa história forte com final triste anunciado.


Bishop foi uma escritora, que apesar de não ter publicado muitos títulos, consagrou-se no meio literário. Chegou a ganhar um dos prêmios mais importantes do ramo: o Pulitzer. Era uma mulher de temperamento introspectivo, depressivo e sofria de alcoolismo. Desde a infância Bishop se viu exposta às amarguras da vida. A mãe sofria de problemas mentais e foi internada, assim a poetisa não teve oportunidade de crescer ao lado dela, sendo criada pela família do pai. Foi um período de muito sofrimento para a escritora, fato que pode ser percebido em sua obra e com a leitura de suas biografias. Bishop sentia-se sem rumo. Desde pequena nunca havia fixado residência. Passou pelo Great Village na Nova Escócia, Canadá, assim como Worcester, Boston, França, Nova Iorque, Europa. Um dia cansada de viver "sem rumo" Bishop decide aportar em Santos apenas para uma temporada turística. Seu contato com Lota é intenso, e as duas se apaixonam. Começa então uma história de amor que faz com que a poetisa fique por 16 anos no Brasil. Elizabeth presenciou um período de intensas mudanças sociais e políticas do nosso país, o que acabou se refletindo em sua obra.que contemplou a beleza e as desigualdades do mesmo. Transitava entre suas moradias no Rio de Janeiro, em Samambaia (Petrópolis) local onde inclusive Lota construiu um estúdio para Bishop trabalhar, e Ouro Preto, cidade que a poetisa amava. Esse ano o centenário de Bishop foi celebrado no Brasil com a estréia da temporada da peça Um Porto para Elizabeth Bishop. Escrita por Marta Góes para Regina Braga interpretar, a peça tem direção de José Possi Neto e teve repercussão internacional quando estreou em 2001, sendo página da revista Newsweek e matéria de capa do New York Times.



 Maria Carlota Costallat de Macedo Soares nasceu em berço de Ouro. Era filha de milionários. Seu pai foi ministro de Getúlio Vargas e Lota nasceu na França, enquanto seu pai vivia lá por motivos de exílio político. Lota era uma mulher a frente de seu tempo. Ousada, criativa, atrevida e muito inteligente. Poucos brasileiros sabem, mas Lota foi a responsável pela construção do Parque Aterro do Flamengo. Este projeto foi agarrado com mãos de ferro por essa mulher de gênio forte que era amiga íntima de Carlos Lacerda, fato que acabou trazendo muita luta política e de vaidades para a vida de Lota. Hoje o aterro é um dos principais pontos turísticos da cidade do Rio de Janeiro. No período de construção, Lota apresentou propostas que enfureciam os demais componentes da equipe de trabalho. Como tinha o olhar voltado para as artes, ela lutou para que ao invés de quatro auto pistas, o parque tivesse apenas duas e que o restante do terreno fosse aproveitado para espaços de lazer, como área livre para caminhada, entre outros. Esse foi o projeto de vida de Dona Lota. 

construção do Aterro do Flamengo
Também se aventurou em um projeto arquitetônico grandioso ao acompanhar de perto a construção de sua casa em Samambaia. A construção era tão original que ganhou um importante prêmio de arquitetura. O espantoso é que Lota não era arquiteta, mas entendia muito do assunto. Possuía uma vasta bibliografia em sua biblioteca sobre o tema e era uma apaixonada por urbanismo. 

casa de Samambaia

Lota era muito influente e vivia rodeada de intelectuais importantes da época. A memória de Lota foi apagada da história nacional, o que é uma pena. Mas esse é um fato que ainda pode ser remediado. Temos a predisposição a "endeusar" figuras que lutaram contra a ditadura no Brasil, o que é louvável, mas o fato de Lota ter tido toda a vida um posicionamento de direita não é argumento plausível para terem suprimido o seu valor para as artes no Brasil. Acredito que Lota não tinha um compromisso com a política. O que ela desejava sim era um encontro com a arte. Um filme sobre a história de amor de Lota de Macedo e Bishop está em fase de produção. A atriz Glória Pires já foi confirmada para interpretar a Dona Lota. O filme terá a direção de Bruno Barreto e está sendo baseado no livro "Flores Raras e Banalíssimas" de Carmen Lúcia de Oliveira. O longa se chamará "A Arte de Perder", título que faz alusão ao trecho de um dos poemas mais conhecidos de Bishop e que contextualiza bem a história de vida dessas dessas mulheres. Lota e Bishop foram duas personalidades que produziram de uma tal maneira, que a questão da homosssexualidade, que inclusive fora assumida de frente e com muita coragem, se torna um mero detalhe em suas biografias. Um mero e lindo detalhe.

VIDEO: Participam do programa a biógrafa Nádia Nogueira, a roteirista Carolina Kotscho e Raphael de Almeida Magalhães, vice-governador da Guanabara na gestão de Carlos Lacerda.

Após a leitura dos livros de Bishop, aconselho um mergulho na narrativa de "Flores Raras e Banalíssimas", livro que já encanta pelo título e que o conteúdo em sí complementa com relatos pautados em pesquisa e muita vontade de contar essa importante biografia. 
E temos também "A Arte de Perder", que é o romance de estréia do americano Michael Sledge.Confira entrevista com o autor:


Fontes: Mona Dorf
Livro: "Flores Raras e Banalíssimas"
           

12 comentários:

Sou de Minas, Uai! at: 9 de novembro de 2011 05:28 disse...

Elizabeth Bishop é poesia pura e Lota de Macedo faz parte da história do Rio de Janeiro e do Brasil. Esse filme que vem aí vai poder aproximar um pouco mais o brasileiro dessa história tão nacional!

Augusto at: 10 de novembro de 2011 15:24 disse...

Boa noite Rafael. Eu me identifiquei com sua postagem sobre esse livro maravilhoso. Partilho de sua visão. Parabéns pelo post, é legal demais encontrar alguém que é fã da Lota e da Bishop, um abraço!

O Pedagogento at: 10 de novembro de 2011 15:55 disse...

Olá Augusto! Que bom que gostou.
Esse foi um dos melhores livros que lí esse ano. E estou empolgando, pois já me empretaram o livro "Uma Arte" , que reúne as cartas escritas pela Bishop!

Santiago Régis at: 14 de novembro de 2011 04:56 disse...

Ainda não li o livro, mas durante algum tempo ouvi de pertinho alguém falando pra mim cada capitulo.. e isso despertou muito a minha vontade de ler e conhecer mais sobre a vida dessas duas =)

Jan Reis at: 20 de janeiro de 2013 14:07 disse...

Estou lendo esse livro e adorando! Vou lendo aos poucos, querendo não terminar a leitura. Eu já conhecia a obra de Elizabeth Bishop desde a Faculdade de Letras quando, também, fiquei conhecendo sobre o envolvimento dela com o Brasil. Recomendo a leitura do livro que, acima de tudo, dá vida à memória e ao feito de Lota de Macedo Soares.

Anônimo at: 10 de agosto de 2013 08:15 disse...

Assisti ontem a noite no Festival de Cinema de Gramado o filme Flores Raras que é uma OBRA PRIMA....livre de qquer tipo de preconceito o brasileiro precisa assistir, admirar e agradecer aos atores, diretor e produtoras por este presente.
Solange (moradora da cidade)

Anônimo at: 18 de agosto de 2013 08:23 disse...

Sempre vou ao cinema ver filmes nacionais e em geral saio do cinema um tanto decepcionada. Com Flores Raras foi diferente. Saí do cinema impactada, plena, maravilhada com o belíssimo filme, com a estória de amor, com a participação das duas heroinas no âmbito nacional e internacional, com a interpretação das atrizes, enfim, amei. Acho que deveria concorrer ao Oscar.

Anônimo at: 31 de agosto de 2013 18:04 disse...

Nossa nunca tinha ouvido falar,e não conhecia a história dessas mulheres guerreiras.estão todos de parabéns pela iniciativa por transformarem essa obra no filme..com toda certeza merece concorrer ao Oscar!

Anônimo at: 31 de março de 2014 09:58 disse...

Suave e apaixonante , mostra a personalidade forte de duas mulheres intensas , com o contexto historio e suas vidas conjuntas. Excelente em tudo !! Senti orgulho do cinema nacional.

hell at: 2 de abril de 2014 06:41 disse...

nossa so tive a oportunidade de ver hj arrepiei uma historia do brasil
não so pelo amor mas pela arte e passagem polica quando Elizabeth Bishop fala que apesar do golpe politico e das preocupaçoes que o brasil passam na epoca o brasileiro sempre tava feliz fazia festa ...apesar ate hj fazem isso com esta politica e corrupição de 2014 o brasileiro leva tudo em festa

CINTIA CORREIA at: 2 de abril de 2014 07:13 disse...

Acabei de ver o filme, e eu me encantei por estas duas lindíssimas personalidades. Realmente, quem dirigiu o filme e os artistas que prestaram esta magnífica homenagem, foram de uma pureza de alma magistral. Muito bom saber, pois infelizmente o Brasil só enaltece cafajestes, que Lota, foi uma mulher de grande personalidade, profissionalismo e amiga ímpar, pois com todas as adversidades da vida, ela sempre pensou mais nos outros no que nela mesma. Parabéns e salvem a sua memória que é de muito merecimento.

Thais Feijo at: 7 de novembro de 2015 14:28 disse...

Lindas, guerreiras e apaixonantes.. uma pena a forma que lota morreu, bom ver mais alguém que é fã das duas ❤

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