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2 de nov de 2011

A REALIDADE POR ESTA MIRA:


Esse mês de outubro foi bastante rico em questão de novidades. Ouvi ótimas músicas, li grandes livros, assisti filmes incríveis. Tudo isso graças aos amigos que tenho. E foi num fim de semana desse mês que fui apresentado ao documentário “Estamira”(2005). O filme acompanha o cotidiano de uma senhora considerada “louca”, e que trabalhava como catadora de lixo no aterro sanitário Jardim Gramacho (Rio de Janeiro). De cara fiquei impressionado com os elementos visuais utilizados pelo diretor Marcos Prado. Há uma cena que ficou marcante em minha mente logo no início do filme. Uma rajada de vento forte, que faz com que muitos papéis e outros detritos comecem a girar, e urubus passam voando ao fundo. Esse contexto de aglomerados de lixo captados por bons ângulos e apenas valorizando a própria paisagem, acabam por criar imagens belas do considerado “sujo”. Começa aí uma dualidade da narrativa visual: o “belo” e o “feio”, o “limpo” e o “sujo”, a “sanidade” e a “loucura”, o “bem” e o “mau”, “Deus” e o “Diabo”.



Aí entra a grande particularidade da existência desse documentário: a personalidade de Estamira. A dinâmica utilizada pelo diretor foi de não haver interferência da equipe no decorrer dos discursos de Estamira. Em nenhum momento se vê qualquer membro da equipe de filmagens, ou ouvimos vozes conduzindo a fala, ou mesmo takes explicativos. Todo o documentário foi construído de forma com que as falas (de Estamira e de sua família) foram descortinando algumas questões importantes para o entendimento do contexto de vida da protagonista, assim como fatores que a levaram as condições apresentadas. Estamira é firme em sua fala e por várias vezes chega a fazer o telespectador pensar na possibilidade de existirem “verdades” ali. Quando contrariada apresenta uma agressividade, principalmente quando o assunto é religião. Para alguns, os conceitos e idéias apresentadas por Estamira quanto à Deus e religião, podem ser assustadores. .

Estamira elabora discursos longos. Ás vezes sua fala é confusa, e às vezes apresenta uma lucidez intrigante, de uma crítica inteligente e ácida. No início do filme há uma fala que me fez pausar e olhar com olhos esbugalhados para meu amigo Lucas:
“Isso aqui é um depósito dos restos.

Às vezes é só resto.

E às vezes vem também descuido [...]”.
Estamira é uma poetisa de nascença. Os termos e discussões vão surgindo de sua boca de modo informal, mas contundentes. Fica nítido um conhecimento de mundo que não surgiu de livros e muito menos da escola, e como diz a própria: “Na escola a gente só copia. A gente aprende mesmo é com as ocorrências da vida”.

Esse documentário é uma oportunidade de discussão rara de se encontrar. Ele apresenta um panorama brasileiro de forma nua e crua, dando voz a um segmento da sociedade a muito ignorado. Não importa o tipo de pensamento que você tenha ou quais são os seus preconceitos, pois é impossível não sair com um outro olhar sobre as “minorias” depois de uma sessão desse filme. É uma produção que essencialmente questiona valores

“Neste mundo de maldades não tem mais o inocente. O que tem, isto sim, por todo lado, é o esperto ao contrário”


O documentário "Estamira" recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. A personagem título faleceu em julho desse ano, supostamente por negligência do nosso sistema de saúde!

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