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18 de dez de 2011

AGRESSÃO EM PAUTA: A CRIANÇA, O YORKSHIRE E A ENFERMEIRA


Esse mês dois assuntos figuraram nas manchetes principais de jornais, nos famosos tweet's, facebook's e bate papo entre as pessoas: a lei que proíbe aplicar castigos físicos nas crianças (projeto de lei 7672) e a violência de uma mulher contra seu cachorrinho yorkshire. Mas então: o que esses dois casos têm em comum? A agressão. Mas se pararmos pra refletir sobre esses dois acontecimentos, e abrirmos mão (só um pouco) do sentimentalismo, chegaremos a uma análise importante da sociedade.

Castigar as crianças é uma prática que poderíamos, talvez, batizar como "tradicional" devido a sua incidência ao longo das gerações. Nossos avós, na grande maioria dos casos foram educados assim, portanto, nossos pais usaram das mesmas técnicas para nos educar e já escutei muito por aí o discurso de que "lombo de burro e bunda de menino foi feito para apanhar."


Enquanto isso em Goiás, uma enfermeira é flagrada em vídeo, torturando um cão yorkshire na frente de sua  filha de aproximadamente três anos de idade. Em depoimento ela alegou que o cachorro “era uma peste”, apesar de que no vídeo podemos perceber um cachorro acuado e sem reação. As imagens são fortes, a sociedade revoltou-se e muitos passaram até a desejar a morte da mulher.

Mais uma vez: o que podemos perceber em comum aqui, mas além da agressão? A tentativa de educar. Quando um pai "agride" um filho visando disciplina, entendimento, "educação", este acredita estar fazendo o certo. Na maioria dos casos a intenção do pai ou responsável não é a de ferir nem física e nem psicologicamente (salvo as exceções, é claro), só que muitas pessoas perdem o controle e acabam por chegar a níveis graves de agressão.

Quem sabe a enfermeira, grande vilã do momento, não tenha tido a intenção de matar o seu cachorro? Mas aconteceu, e é aí que a discussão começa a ferver e venho defender a existência da “Lei da Palmada”, ou seria “Contra a Palmada.” As leis no Brasil já são ambíguas desde o nome. Não é possível medir até que ponto um tapa é saudável, ou não. Não existe um aparelho que faça essa medição para os responsáveis no momento de repreensão “educativa”, assim como não podemos prever a intensidade de nossa ira ou controlá-la (dependendo do caso) e os atos que podemos tomar em um momento de excitação. 
um ato de violência pode começar com uma palmada
Quem foi que disse que só criança que apanha é que tem educação? Recorrer à agressão como justificativa para educar é o reflexo de uma sociedade que não aprendeu a dialogar, e por isso não conseguem enxergar uma outra maneira de educar além da surra, fato que pude comprovar ao conversar com pessoas mais velhas. Muitos deles simplesmente são conseguem imaginar outra forma de intervenção. E então vamos cair na discussão dos grandes mitos: “criança que não apanha é mimada”, “os jovens de hoje estão "topetudos" e não respeitam os mais velhos".

A agressão em busca de “educação” não se difere muito de um processo de tortura. Bater em busca de um objetivo que vai de encontro a um interesse particular é tortura. Não há outro nome para isso. Ajoelhar no milho é tortura. Levar surra de cinto de couro é tortura. Chineladas nas nádegas, pernas e braços é tortura, e devemos assumir. A única diferença será na intensidade, onde o nível de consciência e bom senso de quem aplica o castigo é que ditará o tamanho da dor. Às vezes um mesmo pai que impele ao filho um castigo físico, é o mesmo que se revolta com a idéia de que no passado utilizava-se a palmatória na escola como ferramenta pedagógica. No caso de crianças muito novas, muitas vezes o castigo físico vem antes das repreensões de conversar sobre o que pode e o que não pode, do não faça isso ou aquilo, e a característica curiosa de alguém que está descobrindo o mundo, acaba sendo retaliada de forma brusca, trazendo conseqüências para sua formação, além de estar sendo castigado sem nem saber a causa.

Se a palmada pedagógica fosse tão eficiente seria utilizada como método pelos professores nas escolas - não seria proibido
Não há como negar que a surra é uma forma de opressão. Como vivemos em uma sociedade que evoluiu em termos de liberdade e democracia, os jovens é claro, estão aprendendo cada vez mais a empoderar-se desse processo, e aquele que descobre seu poder de fala e seu senso crítico não irá engolir qualquer conceito. Sairá do papel de vulnerável e passará a não aceitar ser surrado sem um bom motivo para que isso aconteça (se é que existe), diferentemente de gerações atrás, que mesmo diante de uma injustiça dos pais ou responsáveis só poderiam se calar.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) passa a prever que: 
a criança e o adolescente têm o direito de serem educados e cuidados sem o uso de castigo corporal ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar, tratar, educar ou proteger.

A punição perante os erros são necessárias, até para a formação ética das crianças, para assim aprender a viver em sociedade, e este aprendizado não precisa vir através da dor física e corporal pós surra, pois desconfio de sua funcionalidade. Isso não gera aprendizado, gera medo. Acredito muito mais no “castigo” que vem através do diálogo, da proibição momentânea do lazer, e que nasça num processo de acordo entre a criança e o adulto. Nunca como troca, e sim como contextualização de causas e conseqüências, respeitando a fase de desenvolvimento da criança para internalização desses conceitos em forma de atitudes.
às vezes ao invés de uma palmada você poderia simplesmente dizer - 'não'

No Brasil existem leis que visam à proteção de animais. Hoje em dia já não é permitido nem o adestramento de animais com uso de violência, e porque seria tão difícil enxergar métodos de educação de crianças que abrem mão do castigo físico?

Assim como as famílias vem mantendo a tradição de que bater nas crianças é que resolve, nossos governantes e promotores da lei, vêm mantendo a tradição de ambigüidade e incoerência das legislações, e ao mesmo tempo em que protegem, aprovam uma lei onde é permitido sacrificar animais em cerimônias e cultos religiosos.


A sociedade está evoluindo. Eu não acredito em regressão. Apesar de muitas incoerências fico feliz em ver o nascimento de uma visão popular sobre a necessidade de uma educação onde não cabe a violência, pois um processo educacional que não é saudável não terá o poder de cumprir sua missão de instruir e formar um cidadão crítico. Foi bom também ver a indignação de muitos perante a violência contra animais, que são seres que precisam de nossa proteção. Ao mesmo tempo torço para que estas mesmas pessoas que se irritaram com a enfermeira violenta, não sejam as mesmas que dão uma surra de cinto em seus filhos e depois dão banho de água com sal, quando chegam com a nota baixa da escola. Temo pelo momento em que cachorros e crianças estarão tão adestrados pelo medo que não conseguiremos distinguir quem é um e quem é outro.

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