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2 de dez de 2011

CLARICE


 
Clarice, a partir de qual momento você decide efetivamente assumir a carreira de escritora?

- Eu não assumi. Eu nunca assumí. Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu, faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.

Que a Clarice Lispector se tornou um ícone na literatura brasileira não é segredo pra ninguém. É um nome citado inclusive por pessoas que nunca leram um livro inteiro na vida. Clarice se tornou "popular" e sabe-se lá porque. Esse é um mistério que a própria não conseguia entender. Eu assistí a essa entrevista da escritora e sentí um enorme desconforto. É, acho que é essa a palavra. Desconforto acompanhado de admiração. Ela se mostra o tempo todo incomodada, e não se sabe se é com a entrevista ou com a própria vida mesmo. É instigante.


Esse é um vídeo que precisa ser assistido várias vezes, pois apesar de o entrevistador desperdiçar a oportunidade fazendo perguntas um tanto quanto pobres, ainda assim é possível perceber verdade no que a escritora diz. Ela faz algo que hoje não conseguimos ver nos artistas em ascensão ou já consagrados, que é espontaneidade e as vezes até negação em responder uma pergunta. Mas não porque o entrevistador questionara sobre a vida amorosa do entrevistado em sí, e sim porque tocara em um ponto sensível, ou como diria a própria Clarice, "o mais secreto de mim mesma." Esse é o porque (pelo menos para mim) desse vídeo ser tão especial. Nele fica evidente a inquietação artística da Clarice, assim como sua inteligência, personalidade forte e existencialismo exarcebado.

Você discute muito com a Clarice Lispector escritora? 

-Não. Eu me deixo ser.

Tudo em Clarice era grandioso e intenso. Desde as falas ao simples movimento para acender um cigarro e o brincar com os dedos enquanto fuma. O desenho de seus olhos me passou sensações conflitantes. São belos, e com um tom clássico do que internalizamos como característica da vilania das ficções. 

É cinematográfico quando o entrevistador pergunta quando é que o adulto passa a ser solitário e triste e ela responde: "de um modo geral sou alegre" com o mesmo semblante duro, incisivo, fechado com que concedeu toda a entrevista. O forte sotaque ucraniano é um caso à parte e ajuda a complementar a imagem dessa mulher enigmática. Esse é um vídeo que nos faz esquecer um pouco da obra literária da Clarice Lispector e nos perguntar quem era a mulher por trás da escritora.


 Programa Panorama Especial transmitido pela TV Cultura em 1977.

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