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23 de jan de 2012

LEITURA: HÁBITO OU GOSTO?




 O fomento da leitura, enquanto prazer, ainda não se constitui em foco nas instituições escolares, pois estas obedecem a currículos e metodologias que visam resultados mais precisos e o prazer não pode ser mensurado. A discussão da volúpia de ler, da literatura e seu uso pelo simples ato de ler por ler, estão adentrando recentemente as portas dessa instituição originalmente tradicional. Os gestores e educadores estão passando por uma reforma de pensamento nesse sentido. Estão se vendo diante de um modelo diferente daquele que fora vivido por eles próprios em sua fase escolar. Daí a existência de tanta dificuldade em entender esse paradigma.

“Quando uma pessoa sabe ler bem não existem fronteiras para ela. Ela pode viajar não apenas para outros países, mas também no passado, no futuro, no mundo cósmico. Descobre também o caminho para a porção mais íntima da alma humana, passando a conhecer melhor a si mesmo e aos outros.” (BAMBERGER, 1998, p.29)

Na citação acima, encontra-se referências a dois tipos de leituras que serão o foco desse parágrafo. Mas o que é mais importante? O hábito ou o gosto pela leitura? Em seu significado “dicionarizado” a palavra hábito se refere a: disposição adquirida pela repetição freqüente dum ato, uso, costume. Na afirmação de Bamberger, utilizada acima, o autor se refere ao ato de “saber ler bem”. No ambiente escolar “saber ler bem” significa ler com fluência e o aluno é condicionando a obter essa capacidade através do “treino”, da repetição e esse processo termina por diminuir o caráter reflexivo e crítico da leitura que está sendo realizada. No mesmo trecho o autor chama também atenção para a leitura reflexiva, aquela que pode levar ao prazer do auto-conhecimento. A esse tipo de leitura disseminado na escola, onde os aspectos técnicos são prioridade, Silva (1999) complementa de forma humorada, mas real, dizendo que esse conjunto de restrições que prejudicam a fruição e o afloramento de um leitor em potencial, deveriam ser conhecidos como a “lei – dura”:

“O problema da leitura no contexto brasileiro deve ser colocado, figurativamente falando, em termos de uma lei-dura, isto é, em termos de um conjunto de restrições agudas que impede a fruição da leitura, do livro, por milhões de leitores em potencial. É essa mesma “lei-dura” que vem colocar a leitura numa situação de crise, num reflexo de crises maiores presentes em nossa sociedade [...]” (SILVA, 1997, p. 39)

Pode-se entender aqui a “lei-dura” como um conjunto de acontecimentos e fatores que impedem o acesso da população a informação. Isso se dá desde a falta de acesso a bibliotecas públicas e comunitárias, como também nesse modelo arbitrário da educação brasileira que visa resultados. Silva ainda exemplifica melhor sua teoria ao dizer que:

[...] Numa sociedade onde estão presentes a injustiça, a desigualdade, a miséria, a fome e a falta de liberdade e democracia (aqui caracterizados como elementos dessa lei-dura), torna-se muito fácil encontrar pessoas que não tem acesso à informação, aos diversos referenciais escritos em diversos tipos de livros [...](SILVA, 1997, p. 39)

O texto de SILVA faz um apanhado de toda a realidade do cenário brasileiro e que constituiu esse formato desigual que acabou deixando resquícios no ambiente escolar, e portanto, na relação com o conhecimento, aqui exemplificado na aquisição de leitura.

Pode-se dizer então que a questão do hábito, comparado as propostas atuais da escola, de formação de um indivíduo crítico e reflexivo, não terá subsídios para atender a essa demanda. O hábito de ler irá contemplar apenas a leitura vista por suas características técnicas, voltadas para conhecimento de palavras, regras gramaticais, interpretações de texto direcionadas, entre outros.

“[...] creio que muito de nossa insistência enquanto professoras e professores, em que os estudantes “leiam”, num semestre, um cem número de capítulos de livros, reside na compreensão errônea que às vezes temos do ato de ler [...]” (FREIRE, 1984, p.18)

Não se pode deixar de reconhecer a importância do conhecimento do texto e suas regras, que são calcadas no entendimento correto da língua portuguesa. Mas como hoje a sociedade da informação exige um conhecimento mais abrangente de diversas áreas, a escola deve saber aliar os conteúdos com as atividades que irão fazer com que as crianças e adolescentes entendam e vejam a utilização de tais conceitos no dia a dia. 

Prazer, satisfação, inclinação, pendor, critério, opinião. Essas são as definições encontradas no dicionário para a palavra “gosto”. Como essa monografia trata de formação de leitores, você que a leu até aqui, encontrou diversos conceitos referentes a essa forma de se encarar a leitura, através de seu caráter mais significativo. Na primeira parte do discurso de BAMBERGER, citado no início desse capítulo, fora exemplificado o “saber ler bem” como uma amostra da leitura escolarizada, como uma forma de entender o que seria o hábito. A segunda parte dessa mesma afirmação que diz que ao ler a pessoa pode “[...] Viajar não apenas para outros países, mas também no passado, no futuro, no mundo cósmico. Descobre também o caminho para a porção mais íntima da alma humana [...]“, pode-se perceber a relação construída com a leitura através do prazer em ler, do gosto. A partir da habilidade de agir criticamente sobre o que se lê, da leitura por livre arbítrio e por curiosidade que o indivíduo se permitirá fazer relações tão pessoais e instigadoras como as ditas pelo autor nessa segunda parte da citação.

A criança ou adolescente, após ser incentivado em relação ao gosto, e entender a incorporação da leitura e seu sentido começará a adquirir a autonomia necessária para fazer suas próprias escolhas.

“[...] para formar leitores autônomos na instituição escolar não basta modificar os conteúdos do ensino – incluindo, por exemplo, estratégias de autocontrole da leitura -, é necessário, além disso, gerar um conjunto de condições didáticas que autorizem e habilitem o aluno a assumir sua responsabilidade [...]” (LERNER, 2002, p.2)

Percebe-se pois, que ensinar a ler, a ler bem, compreendendo o que se lê é papel e objetivo da escola. A formação de leitores que gostem de ler para além das necessidades pragmáticas deveria também fazer parte do currículo escolar.

Fontes:

BAMBERGER, Richard. Como Incentivar o Hábito de Leitura. Trad. De Octavio Mendes Cajado. 6. ed. São Paulo, Ática, 1995.
FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez Editora, 1984.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e Realidade Brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.

4 comentários:

Santiago Régis at: 23 de janeiro de 2012 18:39 disse...

O Pedagogento firma-se cada vez mais como um espaço consolidado entre tantos e tantos outros, o diferencial sem dúvida nenhuma é a qualidade e a preocupação que o autor deste blog tem com seus leitores..
Quando ao texto desta postagem, está ótimo!
Para mim: quando a leitura é compreendida é conquista um independência.

Marisa Del Roveri at: 25 de janeiro de 2012 06:30 disse...

Leitura é gosto!
Hábito eu tenho de escovar os dentes eu gosto e de ter os dentes limpos!
Maravilhosa essa reflexão!Enquanto educadores não se libertarem dos pragmatismos curriculares vão destruir aquilo que a crianças gostam: ler!

O Pedagogento at: 25 de janeiro de 2012 17:22 disse...

Infelizmente a escola ainda não é local de leitura literária, mas passos importantes estão sendo dados para a mudança dessa realidade.

O Pedagogento at: 25 de janeiro de 2012 17:24 disse...

Infelizmente a escola ainda não é local de leitura literária, mas passos importantes estão sendo dados para a mudança dessa realidade.

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