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21 de mar de 2012

PARA VOCÊ UM PASSO, PARA UMA CRIANÇA...



 Sábado à tarde, ou talvez domingo, não me lembro mais. Uma ida emergencial ao caixa eletrônico e depois supermercado. O que era para ser o simples cumprimento de uma programação de fim de semana e de caminhada sem olhar para os lados a não ser para atravessar a rua, fora interrompida por um acontecimento não muito raro. Vinha em minha direção uma criança, daquelas que chamam atenção pela beleza e miudeza, aparentando 3 ou 4 anos no máximo sendo literalmente arrastada pela mãe na calçada. Observo a cena e como uma lente de câmera fotográfica com desejo de focalizar um ângulo para uma foto, enquadro em minha visão as quatro pernas que vem de encontro a mim. Uma mulher adulta e uma criança. A criança se esforçando para acompanhar a mãe enquanto essa profere xingamentos por conta de sua pressa.

 Sim, eu sei que a rotina pode ser um dos fatores que mais nos aproxima da falta de atenção. Quando começo esse texto dizendo  que andava pela rua sem olhar para os lados, significa que é exatamente isso o que acontece devido à rotina, ou o cansaço, ou a pressa, ou a falta de interesse, ou a acomodação, que já não me permite perceber o que acontece a minha volta e muito menos o que acontece com o outro. O pensamento e as ações “maquinais e internalizadas” nos destra a ser atentos ao atravessar a rua, e talvez a segurar a mochila com mais força ao passar por alguém que rotulamos como figura suspeita. Simplesmente ignoramos cenas, acontecimentos e pequenos milagres diários que acontecem à nossa volta.

Volto então à questão das pernas - será talvez que fora esse contexto imaginado por mim que fizera aquele adulto se esquecer de olhar para baixo e chegar a uma conclusão óbvia? As pernas de uma criança não conseguem acompanhar os passos apressados de um adulto. Não importa aonde você quer chegar e a que horas deve estar lá, a sua pressa não condiz com o processo de maturação de uma criança de 3 anos e muito menos com seus centímetros de pernas. Eu não possuo o conhecimento técnico necessário para afirmar os males que essa atitude pode causar, mas é óbvio que eles existem - são psicológicos e físicos. O ser humano, comparado a outros animais possui o desenvolvimento motor mais lento e nessa fase é preciso cuidado e calma pois a queima de etapas, o treino precoce pode gerar problemas emocionais.

A pressa. A bendita pressa que nos dá a falsa sensação de estar ganhando tempo, enquanto na verdade estamos deixando de entender o que é o tempo e o que ele tem a nos oferecer. Temos tanta pressa em fazer e achamos que isso é aprender. Se já não temos tempo para o exercício de nossas próprias percepções, o outro então passa a ser mero coadjuvante desse processo. A pressa nos ensina a fazer rápido e, portanto não temos tempo de entender que o outro está num estágio diferente e precisa de sua ajuda ou simplesmente respeito e compreensão. Da pressa nascem as famosas gambiarras, aquelas artimanhas que nos fazem chegar ao objetivo final a qualquer custo. E aí a gente coloca em prática os ensinamentos da infância, de quando aprendeu a segurar a mão do adulto com mais força ao invés de andar, pular.

Um adulto segura a mão de uma criança para lhe dar proteção, assim como nos agarramos na mão dos afazeres que tem medo do tempo. Esse tempo é um adulto que te coloca no colo enquanto o sinal está vermelho e que volta a te arrastar pelo braço quando o semáforo ameaça mudar de cor.

1 comentários:

Santiago Régis at: 22 de março de 2012 14:47 disse...

Infelizmente é o que a gente mais encontra: pais sem paciência com seus filhos.

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