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23 de abr de 2012

AS HIPÓTESES POR TRÁS DOS ERROS


Escola é local de aprendizado. Disso já sabemos. Mas há uma aprendizagem muito recorrente no dia a dia da escola e que muitas vezes é mal aproveitada ou simplesmente descartada. O erro. Talvez eu não devesse utilizar essa palavra agora, pois esta já vem dotada de significados, mas é exatamente do "erro" que este texto irá tratar. A escola possui metas pré definidas e um currículo que precisa funcionar como um relógio e uma das formas mais eficazes de se medir ou qualificar a qualidade, ou melhor, o resultado de um ensino está na avaliação. Esta por sua vez aparece das mais diversas formas no ambiente escolar.

O currículo 'apertado' não deixa espaço para a análise do erro. Isso é lamentável. São com as hipóteses que as crianças apontam que podemos perceber muito do que elas trazem de conhecimento prévio e de visão de mundo. O educador reflexivo sabe que um erro não necessariamente é um erro e a partir de um episódio em sala pode-se construir um diálogo de aprendizagem eficiente, calcado em algo palpável para o educador e principalmente para a criança.

 Ao interpretar a realidade, a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões  sobre ela. Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. Por isso, quando uma criança entra para a escola, já percorreu um longo caminho de exploração do homem, da vida e do mundo.

O educador passa a ter uma responsabilidade grande no que diz respeito ao entendimento do porque das perguntas e das respostas que uma criança faz. Nesse momento competência técnica e sensibilidade precisam estar em congruência para que o educador utilize das melhores ferramentas. Conhecer a realidade de seus alunos não é utopia de graduando, é necessidade básica para uma educação de qualidade.

Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola, os livros didáticos ou os professores transmitem. Para aprender, elas precisam descobrir o que a escola, os livros didáticos e os professores pensam. Para ensinar, por outro lado, a escola, os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos.
 O que pode ser rapidamente considerado um erro por nós, adultos, na verdade pode significar uma outra forma de interpretação diante de um fato. Através da reflexão, a criança já elabora uma decisão ou resposta que vai de encontro à sua bagagem cultural. Daí surgem as mais improváveis respostas e reações.

Alguns episódios para ilustrar:

1- Uma turma de uma creche comunitária participaram de uma mediação de leitura literária em uma biblioteca. Na ocasião uma pessoa estava fantasiada de Emília (a personagem do Monteiro Lobato) e perguntou às crianças: "quem sabe cantar a música da Cuca?". Nesse momento todos os adultos presentes esperavam que as crianças cantassem em coro o famoso refrão: "Cuidado com a Cuca que a Cuca te pega, e pega daqui e pega de lá". Trecho que ficou famoso na nova versão televisiva do Sítio do Picapau Amarelo. Surpreendendo a todos, uma menina de mais ou menos três anos começa a cantarolar: "Dorme neném...". Sim, aquela famosa cantiga de ninar. Todos começaram a rir da situação e achar interessante a referência que a criança utilizou, ou seja, certamente algum membro da família dessa criança canta essa cantiga de ninar com frequência. A vinculação da Cuca faz todo o sentido ao se pensar que na sequência a letra diz: "que a Cuca vem pegar".

Esse episódio deixa claro a rápida ligação/interpretação que a criança faz em direção aquilo que faz sentido para ela, que faz parte de seu meio cultural. 

2- Uma sala de aula enfeitada com tema Natalino. Bolinhas brilhantes dependuradas no teto. Aquela decoração não fora feita pelas crianças e sim pelas educadoras. A criança maravilhada com as cores e formas então pergunta: "Quem fez?" e o educador responde: "Ah essas são as bolinhas que nós fizemos para enfeitar a sala". Obs: ao pronunciar a palavra "Nós", o educador utilizou de um recurso natural da fala corriqueira do dia a dia, da linguagem coloquial. O "nós" nesse momento (para o educador) estava simbolizando "nós professores da escola". A criança então respondeu: "Não. Eu não fiz isso não". Ou seja, para a criança o "nós" significa que ela também estava inserida na execução dos efeitos e como ela sabia que não havia participado, logo retrucou.

As hipótese das criança muitas vezes estão dotadas de uma lógica absoluta. Elas são práticas, concisas e muito firmes no que dizem e no que acreditam que seja o certo. 

A matemática é um prato cheio para surgimento das hipóteses:

Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos  erram (sempre), mas também quando eles acertam (às vezes). Por exemplo, um aluno pode multiplicar 420 por 32, escrevendo 40, 800, 60 - 0, 1 200 - 0 = 13.440. O aluno chegou ao resultado certo, seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo.

A discussão é extensa e o propósito aqui de instigar a pesquisa sobre esse assunto. São vários os fatores envolvidos nas especificidades da criança, do professor e do ambiente escolar, mas todos devem procurar sempre andar em uma certa sintonia para a construção de uma relação e de um ambiente de qualidade. Professores, muito cuidado com os rótulos: burro, inteligente, tímido, lento, hiperativo, falador, entre outros. Precisamos investigar mais e tentar diagnosticar menos. O diálogo é a base do conhecimento inclusivo. Exercitando a escuta e aprimorando o diálogo veremos que os supostos erros podem se tornar um bom aperitivo para incrementar as aulas e trazer os conteúdos para a realidade, conferindo a eles praticidade.

Para descontrair:


Fonte: As citações utilizadas nessa postagem foram retiradas do livro: "Alfabetizando sem o Bá-Bé-Bí-Bó-Bú" de Luiz Carlos Cagliari, Capítulo 10: "As Hipóteses por trás dos erros".

4 comentários:

Santiago Régis at: 23 de abril de 2012 10:22 disse...

Ótima postagem, como sempre!
fico muito orgulhoso de ver este blog se transformando em espaço aberto para discussão e fomento da pedagogia, leitura e literatura.

Grandíssimo abraço.

Rafael Mussolini at: 23 de abril de 2012 10:30 disse...

Muito Obrigado Senhor Régis! E obrigado também pelo layout maravilhoso.

Santiago Régis at: 23 de abril de 2012 11:21 disse...

É um presente de fã rsrs

kenia luciana at: 27 de abril de 2012 12:43 disse...

:)

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