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8 de mai de 2012

ESPAÇO, EIS A QUESTÃO


Obra de arte da artista espanhola Alicia Marti. A criação “Biographies” é composta de três instalações em Madri, armadas com obras literárias de vários gêneros. As esculturas chegam à altura de um prédio de três andares e são sustentadas por estruturas de ferro e arame.

Biblioteca é um organismo vivo (quando viva). Entre aquisições como compra, doação e permuta, livros e mais livros vão chegando, num instante surge a necessidade de readequação  das estantes e até a compra de novas para garantir espaço de qualidade e crescimento do acervo. Espaço é e sempre será um desafio no ambiente de uma biblioteca assim como para muitos bibliógrafos. Estou lendo pela segunda vez o livro "A Biblioteca à Noite" do Alberto Manguel e seu relato é dividido em eixos para entendermos a importância da biblioteca enquanto bem cultural, social e histórico - um desses eixos é o espaço.
"Numa biblioteca, nenhuma estante vazia fica assim por muito tempo. Como a natureza, as bibliotecas tem horror ao vácuo, e o problema do espaço é inerente à natureza de qualquer coleção de livros"
 Mesmo em uma biblioteca comunitária que nem sempre possui meios de adquirir títulos atuais (novidades), o movimento é o de crescer e ser o mais completa possível, seja em um gênero, um autor específico, uma coleção, entre outros. Uma biblioteca pública ou privada quando rica em diversidade e número de títulos arrebata o desejo leitor e os olhos.
"Livros velhos, que conhecemos mas não possuímos, cruzam nosso caminho e se convidam para a biblioteca. Livros novos tentam nos seduzir diariamente com títulos tentadores e capas irresistíveis"
Alem do desejo dos mediadores do espaço em construir um acervo de qualidade, surge também a demanda direta dos usuários que passam a garimpar os títulos já existentes e a procurar por outros. Essa geração está vendo muitos livros se tornando séries de televisão ou indo diretamente para a telona do cinema, isso trouxe o fenômeno dos livros da moda, que são sempre procurados e passaram a figurar nas listas de mais vendidos. O público jovem é o mais atingido por esse modelo de difusão literária.
O apartamento de Patrice Moore, em Nova York
"Para enfrentar o volume crescente de livros (e nem sempre pensando em qualidade), os leitores recorreram a todo tipo de expedientes dolorosos: amputar seus tesouros, formar fileiras duplas, excluir assuntos inteiros, presentear as brochuras, mudar de endereço e deixar a casa para os livros. Às vezes, nenhuma dessas opções parece suportável. Pouco após o Natal de 2003, um nova-iorquino de 43 anos, Patrice Moore, teve que ser resgatado de seu apartamento pelos bombeiros, depois de passar dois dias preso sob uma avalanche de jornais, revistas e livros que obstinadamente acumulara por mais de uma década. Os vizinhos ouviram-no gemendo e murmurando atrás da porta, bloqueadas pelo papel. A equipe de resgate precisou quebrar a fechadura com um pé-de-cabra e escavar as pilhas mortíferas de publicações até encontrar Moore, literalmente soterrado pelos livros num canto do apartamento. Foi necessário mais de uma hora para libertá-lo; cinquenta sacos de material impresso foram retirados antes que se chegasse a esse leitor fiel."
Seja pela sonho de ter uma biblioteca "completa", ou pelo desejo de construir um acervo particular rico o espaço sempre será um desafio. Muitas pessoas pensaram em alternativas para lidar com essa questão, outros as colocaram em prática e muitas falharam. Hoje, um meio de vencer a falta de espaço e garantir o acesso e a durabilidade dos acervos está na informatização. Já existem bibliotecas inteiras disponíveis via computador/internet e demais tecnologias, mas ainda não são ferramentas que garantem durabilidade dos dados.
"Ao comparar a biblioteca virtual à biblioteca tradicional, de papel  e tinta, devemos levar em conta vários fatores: que a leitura muitas vezes exige lentidão, profundidade e contexto; que nossa tecnologia eletrônica ainda é frágil e, por seu ritmo de mudança, muitas vezes não nos permite recuperar o que foi registrado em formatos obsoletos; que folhear um livro ou vagar entre estantes é parte essencial ao ofício da leitura e não pode ser inteiramente substituído pela rolagem de uma tela, assim como a viagem real  não se deixa substituir por livros de viagens ou engenhocas com recursos tridimensionais."
Deixo como sugestão a leitura do livro "Biblioteca à noite", um livro essencial para os profissionais do livro e da leitura e um passatempo enriquecedor para leitores curiosos.

Fonte: A Biblioteca à noite de Alberto Manguel (editora Companhia das Letras, 2006)

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