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4 de mai de 2012

ESTATISTICAMENTE IMPROVÁVEL



Wanderley Santana, 1945.
"Lendo Jornal"
Óleo sobre placa
20 x 35 cm

Eu não sou um leitor assíduo de jornal. Apesar da noção de que são portadores de textos diferenciados, tenho preferência por livros. Quando o assunto é jornal sou um leitor de quinta. Só compro um exemplar nas quintas-feiras e não passo das páginas de cultura. Jornal não fora muito recorrente no meu dia a dia, a não ser como recorte para os trabalhos da escola. Hoje leio. Toda quinta. Quinta é dia de crônica da Marina Colasanti.

Moro em uma cidade chamada Vespasiano, que fica situada na região metropolitana de Belo Horizonte. Inclusive trabalho em BH, em um projeto de leitura com bibliotecas comunitárias. Em Vespasiano existem apenas duas bancas de revistas na região central que só funcionam depois das nove horas da matina. Quase virando o embrulho do peixe de amanhã.

Em Belo Horizonte, mais especificamente na região dos bairros Suzana e Primeiro de Maio, que são atendidos pelo projeto de leitura do qual faço parte, não existem bancas de revistas, ou pelo menos nunca tive o privilégio de conhecê-las. Sobre medidas em raios nada entendo, mas sei que em um raio enorme de abrangência você não encontrará um local para adquirir o jornal do dia na região norte de Belo Horizonte. São raios dignos de uma tempestade. A alternativa mais próxima é o “Minas Shopping”, que fica a uma estação de metrô de distância, três passarelas gigantes de andanças e uma avenida projetada apenas para veículos.

Além de colecionar as crônicas de quinta, sou também o responsável por atualizar um blog sobre a vida da escritora Marina Colasanti com o texto da semana. Esse é um projeto que participo com o ilustrador Santiago Régis. A leitura dessas crônicas além de um prazer é um compromisso e uma ação da qual não abro mão enquanto leitor e mediador de leitura. A instituição onde trabalho possui a assinatura do jornal onde é publicada a cobiçada crônica semanal, mas só chega ao nosso endereço eventualmente, por motivos que talvez Deus entenda.

Sabendo de tantas dificuldades para adquirir um jornal resolvi sair de casa um pouco mais cedo nessa quinta. Como as bancas da minha cidade não costumam acordar cedo, peguei o ônibus rumo à Belo Horizonte e desci no meio do caminho para completar o trajeto de metrô, que possui uma estação ao lado do shopping onde encontraria uma espécie de livraria e enfim jornais.

A estação “Vilarinho” é a nascente do metrô da cidade e atualmente está em fase de obras. Um shopping é construído sobre ela. Naturalmente está um caos. As pessoas passam em meio a madeiras, divisórias, redes de proteção, poeira, metal e trabalhadores. Muita gente. Uma fila enorme se forma à frente das catracas. À espera do trem centenas de pessoas se adiantam o mais próximo possível do limite da plataforma para ter a chance de partir na próxima viagem.

O "metrô" chega e com dificuldade consigo entrar. O vagão está lotado e a preocupação aumenta ao lembrar que estamos apenas na primeira estação. Cada vez mais as pessoas se empurram para dar espaço a outros e com isso a partida demora a acontecer. Chegamos à Estação São Gabriel. Esse deveria ser meu ponto de descida para chegar ao trabalho, mas saí de casa mais cedo exclusivamente para comprar o jornal. Olho o celular e vejo que ainda há tempo de prosseguir com meus planos. O jornal está apenas uma estação à frente. Vou. Aqui e lá fora pessoas folheiam exemplares de uns jornais que por aqui custam de vinte e cinco a cinqüenta centavos. A propaganda da acessibilidade financeira minimizou a quase zero a preocupação com a qualidade da pauta. O preço baixo os concedeu status de super. Esses são fáceis de encontrar em todas as estações de metrô, sinais de trânsito, padarias e comércios em geral.

De dentro do trem vejo uma aglomeração de pessoas aguardando a abertura das portas. Vários eram os que queriam entrar, muitos os que queriam sair. Inicia-se uma discussão, o empurra-empurra aumenta e então uma mulher grita à todos pulmões que quer descer, que está passando mal, e realmente estava. Ela sai cambaleando do vagão. A porta se fecha e a viagem prossegue. O objetivo de todos é único as poucas horas da manhã, chegar ao trabalho às oito..

Enfim chego à estação Minas Shopping. Desembarco. Sigo com passos apressados até a livraria acreditando que estaria aberta. Não estava. Descobri que saber das notícias mais tarde que todo mundo não era um privilégio dos cidadãos da minha cidade. Aproximo de uma funcionária do shopping e pergunto se saberia me informar o horário de abertura do estabelecimento, e ela me diz que já devia estar aberto. Resolvo esperar mais um pouco e me sento num banco em frente ao local. A livraria não fica no interior do shopping, está voltada para o estacionamento, vários comércios começam a abrir suas portas. Olho mais uma vez para o relógio e vejo que meu tempo está acabando, afinal bato cartão. De frente à livraria uma ‘banquinha’ que oferece alguma coisa comestível já está em funcionamento, então pergunto a funcionária quando é que o local abre. – “Lá para as nove, nove e meia, às vezes estourando dez” – ela me disse. Desisti e seguí andando para o trabalho.

A parte da manhã transcorreu de forma tranqüila e fui planejando tentar, mais uma vez, adquirir o jornal no intervalo de almoço. Percebí que essa seria a solução. Almocei e seguí rumo a Estação São Gabriel. Mais uma vez a plataforma estava cheia, não tanto como pela manhã, mas cheia. Entro no metrô para descer na estação seguinte.

Repeti os mesmos passos da manhã. Vejo ao longe que pelo menos a livraria está aberta. Entro. Olho para a bancada e vejo toda espécie de jornal, menos o que eu queria. Pergunto por ele à moça distraída com um embrulho nas mãos. Ela então chama por outra e essa diz que apenas o que fica exposto lá do lado de fora na vitrine, para satisfazer os leitores de manchetes está disponível. “Serve esse mesmo” – digo. A moça vai buscar. Enquanto ela captura o jornal fico admirando o 8º volume da coleção "Caetano Veloso 70 anos". Esse vem com o álbum “Noites do Norte” e já que possuo os números anteriores da coleção decido comprar. A moça volta com aquele jornal amassado, amarelado de sol, última chance de ler a crônica ainda no dia de sua publicação. Esse é meu ritual literário, de outro jeito não serve. Coloco embaixo do braço, afinal o que me interessa está bem protegido no interior daquele maço de papéis.

Sigo meu caminho a pé pensando nas estatísticas que afirmam que o brasileiro não lê, que o brasileiro não gosta de ler, que brasileiro lê apenas de um a dois livros por ano. Tudo tão estatisticamente improvável já que não partem da realidade da falta de acesso mas do número de vendas das editoras e livrarias. Se uma banca de jornal é algo tão distante para muitas comunidades, imaginem então o acesso a livrarias com livros acima do orçamento de uma família que vive de salário mínimo? Quantas comunidades contam com a existência de bibliotecas públicas ou comunitárias?

Agora tenho apenas quinze minutos para voltar ao trabalho. Então sigo remoendo as contradições e acontecimentos nascidos do simples e necessário desejo de ler. Assim vamos eu Marina e Caetano pela Avenida Cristiano Machado, já pensando em uma maneira de garantir, com menores sacrifícios, a leitura da semana que vem.

3 comentários:

Santiago Régis at: 4 de maio de 2012 06:46 disse...

O que não faz o prazer pela leitura?
Aventuras pela cidade com certeza ele faz!

Na busca pela crônica da Marina, você ganhou duas ótimas crônicas ;)

Bete Bragança at: 4 de maio de 2012 07:59 disse...

Rafael, uma coisa digo com o maior prazer: se todos fizessem um décimo dos sacrifícios que você está fazendo para adquirir um simples jornal, que é um produto de consumo imediato, portanto deveria ter em qualquer "esquina", com certeza, as estatísticas que você cita, seriam bem melhores.
Mas remoendo aqui o seu problema e uma possível solução para o mesmo, me lembrei que o GDECOM tem vários funcionários, quem sabe algum deles não têm acesso ao jornal com mais facilidade e possa comprar para você todas as quintas-feiras.

Rafael Mussolini at: 4 de maio de 2012 15:03 disse...

Sim Bete. Já estou procurando voluntários para garantir meu jornal. Mas esse texto foi escrito com o intuito de provocar para a questão do acesso a leitura. Mostrando essa minha saga eu deixo a questão: Tá, não somos um país de leitores, e que chance uma pessoa de áreas desprovidas de bancas, livrarias, sebos e bibliotecas tem de despertar pela leitura sem contato com ela? Para algumas pessoas o estímulo é fundamental e se a leitura é um direito deve estar em todos os lugares e a disposição de todos.

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