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6 de fev de 2013

UM ROMANCE BAIANO - SÓ NA BAHIA PODIA ACONTECER



A Bahia de Todos os Santos é a porta do mundo, como se sabe. Desmedida, nela cabem reunidas as demais enseadas do Brasil e ainda sobra espaço onde conter as rias da Galícia e as esquadras do universo. Quanto a beleza, não há comparação que se possa fazer nem existe escritor capaz de descrevê-la.

Um rebanho de ilhas, cada qual mais aprazível e deslumbrante, pasta neste mar de sonho. Pastoreadas pela ilha maior e principal, a de Itaparica, povoada de tropas lusitanas e holandesas, de tribos de índios e de nações africanas. No fundo das águas, no reino de Aioká, jazem cascos de caravelas armadas em guerra, fidalgos portugueses e almirantes batavos, colonos e invasores expulsos pelos denodados patriotas brasileiros. Itaparica, mãe da pátria recente, chão da liberdade nas batalhas da Idependência, nas festas de janeiro.

Das glórias da Bahia de Todos os Santos manda a prudência não falar, é recomendável guardar silêncio, para evitar desrespeito e dor-de-cotovelo: sua fama está na boca dos marítimos, nas canções dos trovadores, nas cartas e relatos dos navegantes. Das glórias da Bahia aqui não se fará praça nem se cantarão loas para celebrá-las: a modéstia é apanágio da grandeza. 

No regaço do golfo, na brisa da península, plantada na montanha, eleva-se a Cidade da Bahia, de seu nome completo Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, enaltecida por gregos e troianos, exaltada em prosa e verso, capital geral da África, situada no Oriente do mundo, na rota das Índias e da China, no meridiano do Caribe, gorda de ouro e prata, perfumada de pimenta e alecrim, cor de cobre, flor de mulataria, porto do mistério, farol do entendimento.

Jorge Amado
O Sumiço da Santa: uma história de feitiçaria (1988) 

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