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26 de mar de 2013

MARATONA MICHÈLE PETIT



Leitura. Essencialmente, este é o tema  de dois grandes livros da escritora francesa Michèle Petit. "A arte de ler ou como resistir à adversidade" e "Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva" (editora 34), levantam questões enriquecedoras sobre os benefícios da leitura e nos mostra o ato de ler e suas ligações com a educação, a construção da identidade e a convivência humana por prismas as vezes inimagináveis.

Em "Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva" encontram-se depoimentos interessantes sobre situações de leitura em espaços diversos, e a conquista de algumas iniciativas que alçaram a leitura a uma percepção de importãncia e sentido em "leitores improváveis". A leitura aparece como peça chave para uma série de transformações do indivíduo e do social.

"Para mim, o principal é que exista um lugar onde as pessoas possam ir quando quiserem se cultivar ou se transformar, quando desejarem ser outra coisa. Algo que a sociedade possa colocar à disposição das pessoas. Acredito que deveria se repensar a sociedade como uma espécie de biblioteca. Do modo como se encontra o sistema, são as pessoas que estão à disposição da sociedade".

Daoud, rapaz de origem senegalesa.

Em "A arte de ler ou como resistir à adversidade" existe um capítulo intitulado Anos de Guerra, "Anos Biblioteca" que é uma daquelas leituras que ficam martelando na cabeça horas depois de lida, e que tornou-se um divisor de águas na construção da minha opinião sobre o prazer da leitura. A discussão sobre o prazer de ler é muitas vezes superficial e colabora para um entendimento errôneo, que transporta textos e leituras, enquanto produção, para um "bom mocismo" pedante, o que pode ser fatal para a análise crítica de leitores iniciantes.

Michèle Petit, de forma inteligente, chama nossa atenção à leitura para entender o mundo, a leitura para enfrentar crises, conflitos e adversidades, e que ainda assim esteja longe de ser um manual de instruções. Depoimentos fortes são utilizados para ilustrar a questão, como este, da escritora Marina Colasanti e sua experiência em tempos de guerra:

"Mas em pleno nomadismo, uma normalidade estável foi criada pelos meus pais, para mim e para meu irmão. Essa normalidade foi a leitura. [...] 

"Quando penso nesses anos, eu os vejo forrados de livros. São meus anos-biblioteca. [...]

"Olhava pela janela da nossa sala, via o símbolo do fascio aposto à fachada do Duomo, e lia. Comíamos couve-flor sete dias na semana, um ovo passou a custar uma lira, dizia-se que o pão era feito de serragem, e eu lia. Deixamos a cidade, buscamos refúgio na montanha. Agora, acordando de manhã, todas as manhãs, as colunas de fumaça no horizonte nos diziam que Milão estava debaixo de bombardeios, e eu, ah! eu continuava lendo"

Michèle Petit é antropóloga, pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do Centre National de la Recherche Scientifique, na França, e tem obras traduzidas em vários países da Europa e da América Latina, como Éloge de la lecture: la construction de soi (2002) e Une enfance au pays des livres (2007), entre outros.


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