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24 de jul de 2015

Viva Antonio Candido


Foto de Bob Wolfenson, Candido e a mulher, a professora e ensaísta Gilda de Mello e Souza, já falecida.

Hoje, dia 24 de julho de 2015, o grande mestre Antonio Candido está completando 97 anos. É considerado um dos maiores críticos literários do Brasil, "pois para ele a crítica não se limita a análise de nossos livros - seu grande esforço foi fazer diálogos entre a literatura brasileira e a universal, entre a produção cultural e a realidade de um país marcado pela desigualdade, entre teoria e militância."

Abaixo, leia o inspirado discurso de Antônio Candido na entrega do premio Juca Pato em 2008:

"Devo ser de fato tão antiquado, que venho sendo definido em algumas instâncias como "ilustrado", devidamente entre aspas, e como alguém preso a uma visão de tipo teleológico da história e do pensamento. Devo esclarecer que, ao contrário do que se poderia pensar, considero esta restrição um elogio. Ela quer dizer que me mantenho fiel à tradição do humanismo ocidental definida a partir do século XVIII, segundo a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento, e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas, tendo como horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica e de harmonia nas relações. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa possibilidade, e há em geral pouca fé nas utopias. Mas o que importa não é que os alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade. E é o que favorece a introdução, mesmo parcial, mesmo insatisfatória, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do contrário, poderíamos cair nas concepções negativistas, segundo as quais a existência é uma agitação aleatória em meio a trevas sem alvorada."
Antonio Candido trouxe olhares diferentes sobre a Literatura Brasileira e "contribuiu com uma formação teorica da nossa literatura - um olhar histórico postado sobre os acontecimentos literários."

Candido elencou algumas obras, que segundo ele, ajudam a entender o Brasil: 

O Cortiço de Aluízio de Azevedo


Apresenta a extrema violência das relações sociais no Brasil e ilustra como o convívio com a escravidão levou ao desprezo por quem sua a camisa. Há ali a tendência de atribuir ao trabalhador um grau de animalidade.

Dom Casmurro de Machado de Assis


Fotografou a hipocrisia e a violência dos endinheirados. Durante décadas uma boa parte da crítica acreditou que Machado fosse alienado politicamente. Antonio Candido demonstrou justamente o contrário.

Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida


Mostra o quanto podemos ser avacalhados. É como se o Brasil vivesse à margem do capitalismo, daí o “jeitinho” funcionar para obter vantagens numa sociedade em que o esforço vale muito pouco.

Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa


Ilustra a dualidade entre razão e mito no imaginário popular brasileiro. Riobaldo, o jagunço imortal de Guimarães Rosa, encarna a ambigüidade moral e existencial do brasileiro.

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