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7 de ago de 2015

O CASO DO CAVALO PROBO



Eu sou do tipo de leitor que é escolhido pelos livros que vai ler. Não sei bem explicar como se dá esse processo mas é assim que funciona. Recentemente fui escolhido pelo "O Cortiço" do Aluísio de Azevedo e tomei um banho de brasilidade e de contexto histórico de uma maneira que só a literatura consegue fazer.

Sem saber por qual caminho estava enveredando comecei a leitura de um novo livro e o terminei recebendo mais uma dose de Brasil na veia com "O caso do cavalo probo". A literatura escreve certo por linhas tortas. 

Acabei de voltar de uma viagem a Jacuecanga, a cidade do livro "O caso do cavalo probo" de Ovídio Poli Júnior (Selo Off Flip, 2013) e sem sair de lá me senti em Vespasiano (cidade onde moro), em Belo Horizonte (cidade que trabalho) e consequentemente no Brasil. Assim como a Jacuecanga do livro a localidade onde moro também é, como brinca um amigo meu, "lugar bom pra fazer uma cidade", e desconfio que às vezes estamos num lugar bom pra fazer um país. 

Um dos fatores mais fortes que permitiram esse estar em tantos lugares ao mesmo tempo foi a maneira estupenda com que o autor consegue, através de um humor incrivelmente inteligente, nos levar a passear pelas mazelas que muitas cidades experimentam por estarem a mercê de políticos e lideranças medíocres.

Nessa história a ironia é um ponto que merece exaltação, e traz consigo na representação do cavalo toda a dualidade do brasileiro que é guerreiro mas também omisso, que é trabalhador e às vezes se ancora no "jeitinho brasileiro" pra resolver seus problemas, que sofre com diversos problemas sociais mas ainda trata política como moeda de troca e depois se assusta com o Congresso que tem. 

Através de um texto literário de primeira qualidade que em alguns momentos nos remete a Machado e Guimarães somos convidados a pensar o país, nossa cultura e nossa hipocrisia.


- Urbe et orbs, urbe est orbs.- [?]
- Dura lex, sed lex. Vox populi, vox Dei. Chico Toucinho não entendeu quase nada daquele palavreado torto. Urbe est bosta, orbis est bosta. Aquela tagarelice falada em malévolo jargão jurídico, em um barroco acintoso de criptólogo e num latim de merda - esterco estrume estrabum - só podia ter sido entalhada com a goiva do escárnio e com o formão da afronta. Era de  se ver que o Abrantes era dado às letras, mas será que não havia meio de traduzir aquela burundanga em linguagem de cristão?
- Duraleco-sedileco é a puta que pariu!!!...



Ovídio Poli Junior é escritor e mora em Paraty. Foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/RFI (Paris) e teve destaque em concursos e prêmios literários brasileiros: Paranavaí, Paulo Leminski, Luiz Vilela, FLIPORTO, Unicamp 40 anos e Newton Sampaio. É graduado em Filosofia (USP) e doutor em Literatura Brasileira (USP). Publicou O caso do cavalo probo (narrativa satírica), Sobre homens & bestas (contos) e, para crianças, A rebelião dos peixes. É curador da Off Flip das Letras e editor do Selo Off Flip.

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