destaque

destaque
13 de out de 2015

o legado de Mário de Andrade como agitador cultural e os movimentos de incidência em políticas públicas pela leitura literária hoje


Texto apresentado dia 03 de julho de 2015 na mesa do Movimento Por Um Brasil Literário durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).




Quando recebi o convite para participar dessa mesa sobre o legado de Mário de Andrade como agitador cultural e os movimentos de incidência em políticas públicas pela leitura literária hoje, foi pedido também que eu fizesse um contraponto com a minha atuação enquanto agitador cultural e qual a inspiração Mário deixa para mim enquanto militante do livro e da leitura. Fiquei muito satisfeito com o convite por conta de toda a admiração pela verdadeira revolução que Mário fez na cultura do nosso país, mas ao mesmo tempo me perguntei: “Mas eu sou agitador cultural”?

Eu só conseguia enxergar na minha frente a palavra “agitador”, que já me levava para a palavra “agitado”, e se tem uma coisa que não sou é uma pessoa agitada. Até então eu nunca havia me visto como tal e não conseguia me encaixar nessa palavra. Então fui revisitar minha história perante os temas que me tocavam e ainda hoje me tocam.

Faz algum tempo que estou envolvido em questões sociais e essa é uma história que iniciou ainda na adolescência. Tive a oportunidade de participar de um movimento que tratava da questão afetivo-sexual e que se tornou alarmante na cidade por conta do grande número de casos de gravidez na adolescência. Depois fui para uma ONG que tratava da questão dos direitos da criança e do adolescente tendo como foco a luta contra o abuso e exploração sexual com base no Estatuto da Criança e do Adolescente. Participei de movimentos contra a municipalização da escola em que estudava e foi nesse período que adentrei uma câmara municipal pela primeira vez enquanto cidadão consciente do que queria e comecei a praticar o controle social, mas ainda sem saber muito bem o que isso significava conceitualmente. Daí por diante foram diversos os temas que me chamaram e iam desde a diversidade sexual ao enfrentamento ao racismo e depois entrando de vez na luta por melhores condições educacionais, principalmente durante período da graduação. Até que vim parar na leitura e hoje participo da movimentação em prol das bibliotecas e do plano municipal de leitura da cidade de Belo Horizonte.

Bom, agora já estava convencido de que era um agitador cultural. Mas aí surgiu outra preocupação: falar sobre Mário de Andrade em um evento literário tão grandioso como a FLIP e onde o próprio seria o autor homenageado. Eu não sou um especialista na obra de Mário de Andrade, eu sou um leitor de Mário de Andrade. Um apreciador dessa produção que certa vez o próprio autor caracterizou como “desvairismo” ou escrita “meio a sério, meio a brincar” e essa auto interpretação muito me agradou.

Explico-me fazendo referência a um discurso da personagem principal de um livro que li recentemente chamado “O Fazedor de Velhos” do Rodrigo Lacerda, que dizia que havia nele uma “flexibilidade mental excessiva” – e o que seria isso? A personagem Pedro que no romance cursa a faculdade de história dizia que “se lesse um livro sobre D. Pedro I, e nesse livro o historiador apresentasse a tese de que ele foi um excelente imperador, ele acreditava. Mas, se na semana seguinte lesse outro livro, de outro historiador, sobre o mesmo assunto, mas dizendo exatamente o contrário, acreditava também”. É claro que essa constatação causou reviravoltas e descobrimentos para o herói do livro em questão, mas identifiquei-me pelo fato da leitura literária ter o mesmo poder sobre mim.

Quando digo que não era um especialista em Mário de Andrade, é porque realmente não o sou. Hoje estou aqui falando como um leitor de leitura literária que se deu ao luxo de simplesmente acreditar no que os livros do Mário me contaram. É essa a relação que tenho a cada livro literário que leio – o direito de acreditar na leitura, o direito de ficcionar. A cada livro de Mário de Andrade que leio quero simplesmente acreditar no que está sendo dito e se caso desacredito já possuo um discurso pronto que só tem a intenção de satisfazer a mim e a mais ninguém, do tipo “ah, isso foi intencional, uma provocação do autor”.

Mas como o livro literário não deixa ninguém por muito tempo na zona de conforto recentemente transito entre a “flexibilidade mental excessiva”, emprestada do Rodrigo Lacerda ao “cultivo da preguiça” de Macunaíma. Exerço o cultivo da preguiça junto com Macunaíma e enquanto leio Mario de Andrade sou preguiçoso, sou arteiro, sou 300, e essa é a maior emoção da literatura para mim.

Como Mário de Andrade era um agitador cultural agitado nos deixou um legado tão rico que ele bem poderia ser de Minas Gerais. Foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta e alçou a sua literatura a um patamar casado aos demais movimentos culturais e artísticos.

Esse é o primeiro ponto que gostaria de ressaltar como uma inspiração para nós, que incidimos em políticas públicas para a leitura hoje, após algumas reflexões sobre a melhor maneira de se construir uma política pública coerente, que é a incrível capacidade de Mário de Andrade de pensar na junção da literatura aos demais movimentos artísticos.

Esse paulista engajado iniciou um processo de transformação da política nacional inovador, calcado na reformulação e criação de uma cultura da democratização e do acesso que podemos definir como intersetorial e com pensamento na coletividade. É o que tanto buscamos hoje no que se refere à formulação e execução de políticas públicas de um modo geral e ressaltando é claro o recorte livro, leitura, literatura e bibliotecas. A política pública realizada através da participação de todos – e principalmente garantindo todos os mecanismos de participação da sociedade civil.

O movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 22 foi um divisor de águas para o país e colaborou com uma mudança de olhar para a cultura através do resgate e independência cultural e uma nova visão do fazer artístico. E é um processo similar que estamos construindo hoje na caminhada pela garantia que o Plano Nacional do Livro e da leitura se torne lei e que os planos municipais de leitura sejam implantados nos municípios desse país com garantia de dotação orçamentária e cronograma bem elaborado de execução e controle social.

Se hoje vemos a Semana de 22 encabeçada pelo nosso agitador cultural como um marco que reformulou a literatura e as artes visuais no Brasil, daqui a um tempo um novo marco eternizará a reformulação do olhar perante a importância do livro, da leitura e das bibliotecas, e consequentemente da Educação após a constatação do impacto trazido pela noção e execução de estratégias que promovam a leitura como direito humano.

Mário de Andrade, ao olhar para o desafio de defender seus ideais modernistas para o Brasil no que se refere às principais características que buscava com a Semana de Arte Moderna e sua importância, tratou de unificar a literatura a outras artes e propor uma construção coletiva que se vinculava aos seguintes pontos: desintegração do passado; atualização intelectual; pesquisa; criação estética; consciência criadora nacional.

Vejo a possibilidade de analisarmos o processo que estamos construindo hoje através do mesmo viés, ou seja, desses mesmos pontos, onde a desintegração do passado seria o nosso desejo por uma nova biblioteca, atenta às mudanças sociais e comprometida com sua função social. Onde a atualização intelectual seria uma nova visão sobre aos processos de formação de leitores autônomos, de um novo perfil de bibliotecário e a valorização do mediador de leitura. E a pesquisa seja a coerência de se construir propostas formuladas a partir de diagnósticos, estatísticas confiáveis, escuta das necessidades da população e retrato da situação atual para alcançar a situação ideal. Que a criação estética seja garantida desde a estrutura, o espaço e chegando até um acervo com total capacidade de nutrir culturalmente seu público alvo. E que a consciência criadora nacional seja a aprovação do Plano Nacional de Leitura em forma de lei, criando uma cadeia de fortalecimento dos planos municipais e estaduais de leitura.

O terceiro e último ponto, mas não menos importante que trago como contribuição do legado de Mário para as discussões de políticas públicas nos dias de hoje, é o seu posicionamento de ocupação de espaços de participação, seja como agitador cultural, seja através de cargos de incidência política, onde pôde lutar pelas transformações sociais que tanto acreditava e que estavam sempre calcadas na literatura e nas artes.

Rafael Mussolini

Rafael Mussolini, Ovídio Poli Junior, Ninfa Parreiras, Volnei Canonica e Luiz Ruffato

0 comentários:

Postar um comentário