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28 de dez de 2016

Resenha: Enquanto elas não voltam de Thamires Mussolini



O mundo entrou em colapso. A Terra é castigada por chuvas ácidas, as cidades estão inabitadas e é preciso se aventurar para encontrar alimentos. Uma doença misteriosa, criaturas mortais surgem e os sobreviventes são uma ameaça. Esse é o cenário do livro "Enquanto elas não voltam" que foi lançado esse ano pela Editora Quintal Edições (Belo Horizonte, 2016). 

Durante a leitura acompanhamos a luta pela sobrevivência de Lira. Tudo que sabemos desse universo é através de seu ponto de vista, de suas lembranças e das tragédias vividas pela personagem após o declínio da humanidade. A narrativa começa com Lira completamente sozinha tentando sobreviver a uma realidade onde até o clima é hostil. 

Enquanto elas não voltam é um romance pós apocalíptico e isso é quase tudo que posso te dizer sobre esse livro. Isso porque a grande sacada da história é o trabalho com a dúvida. No universo criado pela jovem escritora Thamires Mussolini não é possível delimitar espaço e nem tempo. Somos inseridos em uma história que nos coloca na mesma posição que os personagens centrais - ávidos a entender as razões de tamanha destruição e descobrir o caminho para o recomeço, para o renascimento da humanidade.


Quando digo que a história não delimita espaço e tempo quero dizer que em nenhum momento somos situados geograficamente. A história pode estar se passando em qualquer lugar ou cidade do planeta e em um ano, uma época que é completamente desconhecida pelos leitores. Ao que tudo indica os próprios personagens também perderam essa noção, uma vez que a luta pela própria vida é o que importa. Em um cenário onde parece que o próprio planeta está fazendo uma seleção natural, de onde você é ou veio é mero detalhe. 

Essa falta de referência, em minha opinião, colabora para a sensação de medo e ansiedade que a história transmite. Isso trouxe para mim enquanto leitor a sensação de estar perdido junto com os personagens. Enquanto elas não voltam utiliza muito bem da temática do fim, que é o que permeia as grandes histórias apocalípticas. Um fim que parece ter sido propiciado pela própria intransigência humana. 

"Andamos muito, sempre preocupados. O silêncio tomava conta, o que ajudava a ouvir caso alguém estivesse se aproximando. O medo era notável em cada um de nós, porém ninguém queria deixá-lo transparecer. À medida que avançávamos comecei a perceber que o cheiro e a temperatura mudavam, o frio cortante ia se dispersando e o ar quente e abafado ficava mais fácil de se respirar. Estávamos saindo da parte deserta, mas o que estaria mais à frente? Será que ainda existia algum vestígio da cidade? Eu pensava ser improvável..."

O livro é uma grande pedida para fãs de histórias sobre “o fim do mundo”. Ao mesmo tempo em que flerta com o suspense e a ação dignas de filmes e séries com a mesma temática,“Enquanto elas não voltam” explora a natureza humana em tempos de desespero com personagens muitas vezes negligenciados por  histórias para jovens adultos que estão no mercado.

Esse é um daqueles livros para ler, trocar impressões com outros leitores e criar suas próprias teorias. A cada adormecer e despertar de Lira chegamos muitas vezes a desconfiar de que tudo isso não passa de um pesadelo recorrente.



Estudou Letras na UFMG com ênfase em literatura. É uma leitora voraz e dessa prática surgiu seu interesse pela escrita. Escreve desde criança e em 2013 ganhou um concurso de escrita, pela faculdade, quando seu primeiro conto foi publicado. Em 2014 mais dois contos foram publicados ao ficar em terceiro lugar e ganhar uma menção honrosa em um concurso da editora Literacidade. “Enquanto Elas Não Voltam” é o seu primeiro livro publicado

1 comentários:

Raquel Mussolini at: 28 de dezembro de 2016 12:41 disse...

O livro é extremamente instigando, uma descoberta a cada página e um final surpreendente.

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